Novembro acabou, mas a Black continua. Dezembro chegou e o Natal promete mais do mesmo: preços inflados, promoções fake e a certeza de que adoramos ser enganados—desde que venha embrulhado com laço vermelho
Dezembro chegou. A Black Friday já passou, ou será que não? Porque se você abrir qualquer site de varejo agora, vai encontrar: “Esquenta Natal”, “Black December”, “Cyber Christmas”, “Mega Ofertas de Fim de Ano”.
A verdade é que a Black Friday brasileira nunca termina. Ela apenas troca de nome e de cor do banner. Vermelho vira verde-e-vermelho. O Papai Noel substitui o countdown. Mas a essência permanece: preços inflados, descontos mentirosos e uma população que sabe disso, mas compra mesmo assim.
O Que Ficou da Black Friday
Segundo o Itaú Unibanco, as vendas da Black Friday 2025 cresceram 28,5% em relação a 2024. O comércio online expandiu 33,25%. O Pix cresceu 37,5%. Números lindos, dignos de manchete.
Mas ninguém pergunta: cresceu em cima de quê? Novembro de 2024 foi fraco. Crescer 28% sobre base fraca não é milagre; é matemática gentil.
Enquanto as estatísticas brilhavam, Sandra de Assis, gerente da Serra’s Calçados no hipercentro de BH, resumiu em uma materia de O Tempo, a realidade do pequeno comércio: “Olha essa loja vazia do jeito que está. O pessoal quer coisa barata, mas o custo não dá para vender barato.”
A loja ofereceu até 70% de desconto. Fez decoração, antecipou promoções, mandou WhatsApp. Resultado? Movimento fraco. Porque o problema não é desconto. É que ninguém vai mais ao Centro. As grandes lojas migraram para shoppings. O comércio popular foi abandonado. E a Polícia Militar precisou lançar uma “Operação Black Friday” só para dar sensação de segurança.
Acompanhei preços de notebooks e passagens aéreas por três semanas. Notebooks que custavam R$ 3.200 em outubro apareceram “em promoção” por R$ 3.499 na Black Friday, com um risco falso sobre “de R$ 4.999”. Passagens aéreas? Mesmo preço de sempre, mas agora com banner “IMPERDÍVEL”.
Sim, existem promoções reais. Mas são raras e exigem trabalho de detetive. A maioria não faz isso. E o varejo sabe.
Natal: O Mesmo Teatro, Outra Fantasia
Agora que a cortina da Black Friday caiu, entra em cena o Natal. E com ele, uma nova onda de ofertas que seguem o mesmo roteiro:
- “Presentes com até 50% OFF!” (preço inflado em novembro, “desconto” em dezembro)
- “Compre 2, leve 3!” (produtos encalhados que ninguém queria antes)
- “Entrega garantida até o Natal!” (se você comprar até amanhã, pagar frete expresso e torcer)
- “Ofertas relâmpago!” (que duram o mês inteiro)
O Natal brasileiro virou extensão comercial da Black Friday ou Black veio como um pré Natal…. Mesma estratégia, mesmo teatro, mesma maquiagem nos preços. A diferença? Agora tem apelo emocional: “dê um presente especial para quem você ama”. Tradução: “compre essa coisa superfaturada porque você se sente culpado de não ter dado atenção o ano inteiro”.
E funciona. Porque todos sabemos que o presente importa menos que o gesto. Então compramos o que está “em promoção”, embrulhamos com papel brilhante e entregamos com a consciência tranquila de que “pelo menos estava em oferta”.
Por Que Continuamos Participando?
Aqui está o ponto: todo mundo sabe.
Os consumidores sabem que os preços foram inflados. Sabem que muitas promoções são falsas. Sabem que o mesmo produto estará mais barato em janeiro.
E ainda assim, compram.
Por quê?
Porque a Black Friday, o Natal, o Ano Novo, nenhum deles é sobre desconto real. É sobre participar do ritual coletivo. É sobre sentir e dizer pros amigos que fez um bom negócio, mesmo sabendo que não fez. É sobre a ilusão confortável, a dopamina temporária, a pequena vitória simbólica.
O varejo não vende produto. Vende a sensação de ter sido esperto. E nós compramos essa sensação com prazer.
Quem Perde de Verdade
Enquanto grandes varejistas comemoram recordes, o pequeno comerciante agoniza. Sandra, da Serra’s Calçados, diz que não tem mão de obra porque “o comércio não oferece nada, é estressante, não tem benefícios”.
O e-commerce explodiu. O consumidor aprendeu a comprar de pijama. As lojas físicas do Centro ficaram vazias. Os custos fixos continuam altos. A margem para dar desconto real? Quase zero.
A CDL criou o Black Zap BH, uma ferramenta interessante para micro e pequenos empreendedores venderem pelo WhatsApp. Iniciativa honesta. Mas é colete salva-vidas no Titanic: o problema é estrutural.
A Verdade Que Ninguém Quer Ouvir
A Black Friday funciona. O Natal funciona. Ano Novo vai funcionar. Tudo funciona porque todos aceitaram o jogo.
O varejista infla preços. O consumidor finge que não viu. O banco anuncia crescimento. A mídia estampa “recordes”. E todo mundo sai satisfeito, mesmo que nada tenha mudado.
O que importa não é o desconto. É o ritual. É o momento coletivo onde todos concordam, por algumas horas, que aquilo ali é especial.
E talvez seja isso que mais incomoda: não é que estejamos sendo enganados contra nossa vontade. É que gostamos de ser enganados, desde que a encenação seja boa.
Preferimos a ilusão confortável de que pegamos uma promoção incrível do que encarar a verdade incômoda: pagamos o preço justo – ou mais caro – por impulso, incentivados por cronômetros falsos e descontos inventados.
O Que Fazer?
Se quiser realmente economizar:
- Acompanhe preços por semanas. Use Zoom, Buscapé, Pelando.
- Desconfie de descontos acima de 50%. Quase sempre são preços inflados antes.
- Não compre por impulso. Se não estava na lista antes, provavelmente não precisa agora.
- Ignore cronômetros. São falsos. O “estoque limitado” se renova magicamente.
- Valorize o comércio local. Quando morrer, só restarão algoritmos.
Mas se você quer simplesmente curtir o teatro, comprar porque todo mundo está comprando, porque é divertido, porque trabalhou o ano inteiro e merece, mesmo que seja mentira, tudo bem também.
Só não finja surpresa quando, em janeiro, o mesmo produto estiver 20% mais barato. Ou quando descobrir que o “presente perfeito” nunca custou o preço riscado na etiqueta.
No Brasil, Black Friday, Natal e Ano Novo são isso: um pacto coletivo de fingimento, onde todos concordam em acreditar na mentira por tempo suficiente para passar o cartão.
E, convenhamos, já vimos encenações piores.
Pelo menos essa vem embrulhada para presente.
Às vezes.
Se você pagar o extra.





