Senta que lá vem tapa sem luva.
Todo o ecossistema do marketing corporativo virou sebo de gente brilhante empoeirada de talco de bumbum. De segunda a segunda (mataram nosso fim de semana) surgem “especialistas em escala exponencial” vendendo fórmula gourmetizada em carrossel de trinta páginas ou em keynote com luz roxa e tilintar de sinos tibetanos. Gente que decora meia dúzia de buzzwords em inglês, chama KPI de “kei pi ai” e acredita que storytelling é começar frase com “Era uma vez a disrupção…”.
Esses poliglotas da enrolação têm uma meta secreta: bajular o ego inflado de empresários e políticos carentes de palmas. Se conseguirem um crachá, um coffee break VIP ou, com sorte, um cargo que inclua “head” no nome, o truque já valeu. O roteiro é sempre o mesmo, desculpe, o script, porque roteiro é muito proletário:
- Chegam cheios de “insights de mercado”.
- Prometem escalar faturamento (ou popularidade) em 3,5 semanas.
- Criam OKRs que ninguém entende.
- Na quinta semana ainda estão polindo template de slide.
- Quando a cobrança bate, sacam o truque de mestre: culpam o dólar, a IA, o estagiário ou o mercúrio retrógrado.
- Avançam para a próxima empresa ou campanha, deixando planilhas zumbis para trás.
São mágicos, não bruxos. E isso faz TODA diferença.
O mágico veste terno slim fit, anel da moda e perfume de aeroporto. Ele tem truques, sim, mas todos cabem num bolso interno: uma apresentação cheia de mockups e um cronograma brilhando em código de cores. Ao primeiro sinal de problema real, estoque parado, lead caro, pesquisa qualitativa acusando rejeição, lá vem o clássico “precisamos recalibrar a estratégia”. Tradução: “O coelho sumiu, me empresta outro chapéu”.
O bruxo, ah, o bruxo não desfila tailleur. Aparece de camisa batida, talvez Hering, talvez moletom. Zero glitter. Traz uma maleta amassada com coisas estranhas: planilhas sujas de anotação, teste A/B meio mastigado, dados brutos que cheiram a reality show. A cliente estranha: “Cadê o case study bonito?”. O bruxo mostra cupom de venda real, conversão que aconteceu ontem, feedback escancarado do SAC, reclamação do time interno…. Não brilha, mas faz estrago: mexe em SKU, mata campanha que drena orçamento, chama o dono no canto e diz “você tá errado”. Não ilude, transforma. E o feitiço dele dura, mesmo sem fumaça colorida.
Quando migramos para o marketing político, o show pirotécnico ganha holofote extra. Ali o público-alvo é um eleitorado inteiro, ávido por frases de efeito e jargões de “nova política”. O mágico se lambuza: cria slogan de três palavras, faz dancinha em Reels, empacota promessa impossível em cores patriotas. E se a pesquisa de intenção de voto desanda? Ele culpa “narrativa hostil”, “big tech enviesada”, “campanha de fake news (dos outros)”. Some no dia da apuração…. aparece quatro anos depois, reinventado como “estrategista de causas”.
Ilusão x Realidade
Por que a ilusão vende tão fácil? Porque é indolor. Escutar verdade dói, especialmente quando o vendedor de sonho é você mesmo. CEO e candidato amam palco: adoram ouvir que a marca ou candidatura virou “case”, que a audiência “ama o propósito”. O mágico sabe disso: distribui tapinhas no ego como quem joga confete em bloco de Carnaval. Esquece de avisar que propaganda sem produto, ou proposta, boa é meme que expira em 24 horas.
O bruxo pega pesado. Ele checa se o promotor está sorrindo na loja, se o call center atende antes do terceiro toque, se o time comercial sabe falar sem gaguejar. No campo político, confere se o candidato cumpre agenda em cidade pequena, se domina minimamente o tema quando o repórter pergunta, se o comitê atende eleitor com respeito. Depois de limpar essa casa, aí sim ele pensa em Reels ou thread no X (Twitter). Resultado? Cresce devagar, mas cresce. E não morre na primeira crise de algoritmo, nem no primeiro fact-checking sério.
Vamos listar os truques mais comuns dos mágicos corporativos e políticos:
• PowerPoint pirotécnico: animações em todas as transições para não sobrar tempo de questionar o slide.
• Métrica de vaidade: número de impressões ou de seguidores sem taxa de conversão ou voto. Parece alto, não serve pra nada.
• Buzzword-roulette: cada reunião traz uma sigla nova. ESG, PLG, VUCA, FOMO, pipeline, “escuta ativa”, “governo 5.0”. A plateia sai tonta, mas convencida.
• Blame shifting: deu ruim? A culpa foi do horário de postagem, da cor do botão, do algoritmo, da imprensa marrom. Nunca dele.
E como age o bruxo?
• Diagnóstico de solo: cava fundo nos dados de venda, nas planilhas de pesquisa espontânea, na verbatim do SAC e do eleitor.
• Ritual de foco: escolhe duas métricas-mãe (receita limpa ou intenção de voto líquido) e mata o resto. Disciplina é magia de longo prazo.
• Operário-mestre: aparece no chão de fábrica, no PDV, no comitê de bairro, no call center. Aprende dor, não apenas lê resumos.
• Verdade crua: se o produto é ruim ou a promessa é vazia, ele diz. Se o CEO atrapalha, encara. Se o candidato não sabe debater, treina ou desiste.
Magia toca, mágica ilude. Magia pede suar a camisa, perde seguidor ou voto no primeiro choque de realidade, mas ganha advocacia de marca, ou militância genuína. Mágica coleciona aplauso rápido e deixa o palco sujo de confete.
Na prática, como separar um do outro?
- Peça histórico de resultados duradouros, não print de alcance. Mágicos adoram vanity screen.
- Pergunte o que ele cancelou na última empresa ou campanha. Bruxos têm listas de “coisas que matei para dar certo”.
- Observe a linguagem: quem larga jargão e explica como se fosse pra avó geralmente sabe do que fala.
- No primeiro problema, veja quem some do grupo de WhatsApp. Mágico tirou férias? Já sabe.
E se você descobriu que contratou um mágico? Calma. Ainda dá para virar o jogo: corte o espetáculo, peça piloto pequeno, meta clara e prazo curto. Truque sem plateia perde a graça, acredite.
Será que todo mágico é vilão?
Não.
Ilusão também diverte, abre porta de imaginação, inspira equipe ou eleitorado. O perigo é confundir entretenimento com estratégia. Show é show, negócio é negócio, política é política. Se precisa de auditório para funcionar, cuidado.
Nem bruxo é a solução sempre. Analise, converse, ouça quem está do seu lado e você confie.
O mercado anda cheio de “senhores de nada”, pulando de galho em galho, empilhando cartões de visita, atropelando quem faz e culpando quem não pode se defender. Eles prosperam onde impera a pressa e a expectativa de solução milagrosa. Combatê-los exige paciência, método e senso crítico. Vai doer, mas como diz aquele velho bruxo sem LinkedIn e sem partido: “Dor é o sinal de que o feitiço está funcionando”.
Resumo para levar pra reunião, ou para o war room da campanha:
• Desconfie do truque rápido, ele custa caro depois.
• Valorize quem fala pouco e entrega muito.
• Ego de CEO ou de candidato não paga boleto nem urna, resultado sim.
• Slide bonito não resolve goteira em funil de vendas nem rejeição em pesquisa qualitativa.
• Magia verdadeira é suja, exige mão na massa, fede a dados, soa incômoda, e funciona.
Quer continuar encantando plateia com fumaça? Boa sorte correndo entre marcas e mandatos, culpando o algoritmo ou o eleitor. Prefere criar feitiço que permanece? Troque terno slim por roupa que aguente lama, abra o arquivo bruto, encare a verdade. E, principalmente, pare de puxar tapete. Piso limpo ajuda todo mundo a enxergar quem está realmente descalço.
Fim do truque. A luz voltou. Quem ainda está no palco?





