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Fake news não têm lado porque o problema começa em nós

A desinformação pode servir à esquerda ou à direita. O mecanismo que a torna possível é anterior à ideologia: nossa necessidade de proteger crenças, pertencer a grupos e transformar versões confortáveis em verdades.

Recentemente, participei de um livro coletivo no qual vários autores exploram diferentes nuances de Dom Quixote. No texto que escrevi, intitulado Nossa necessidade de enlouquecer, parti de uma ideia simples: nós não enlouquecemos porque vemos gigantes onde existem moinhos. Enlouquecemos porque precisamos que eles sejam gigantes.

Alonso Quijano consumiu tantos romances de cavalaria que deixou de negociar com a realidade. Não mentia deliberadamente. Acreditava. Mais ainda: precisava acreditar. Os gigantes davam sentido à batalha, justificavam sua coragem e o transformavam em protagonista da história que havia escolhido viver.

Naquele ensaio, comparei o personagem de Cervantes ao nosso comportamento atual. Também reinventamos ameaças, exageramos disputas e reorganizamos a realidade para que ela caiba em nossas narrativas. Nossos romances de cavalaria mudaram de formato. Agora chegam por manchetes, vídeos curtos, cortes editados, influenciadores, grupos digitais e certezas prontas para compartilhamento.

Neste artigo, quero ir além. Se em Dom Quixote tratei da nossa necessidade de construir gigantes, agora é preciso investigar a engrenagem que mantém esses gigantes de pé. Por que uma notícia falsa encontra tanta gente disposta a acreditar nela? Por que uma correção factual costuma ter menos força do que a mentira original? E por que insistimos em tratar a desinformação como defeito exclusivo do lado político adversário?

A resposta mais incômoda é também a mais importante: fake news não têm lado. Podem ser fabricadas e usadas pela esquerda, pela direita, pelo centro ou por qualquer grupo interessado em mobilizar pessoas. A ideologia define o conteúdo da mentira e escolhe seus inimigos. Mas o mecanismo que permite sua circulação pertence à natureza humana.

A mentira do outro e a inocência do nosso lado

É fácil identificar a desinformação quando ela favorece quem combatemos. Nesse momento, recuperamos o rigor, exigimos fontes, questionamos números, verificamos datas e procuramos o contexto. Mas, quando a mesma estrutura narrativa confirma nossas convicções, o padrão de exigência muda. Aquilo que antes precisava ser demonstrado passa a parecer evidente.

Esse comportamento não é exclusividade de pessoas desinformadas ou pouco inteligentes. Conhecimento e inteligência podem até fornecer instrumentos mais sofisticados para justificar aquilo em que já queremos acreditar. A capacidade de argumentar não garante imparcialidade. Muitas vezes apenas melhora nossa defesa.

Em The Enigma of Reason, de Hugo Mercier e Dan Sperber, os autores discutem como o raciocínio humano opera em contextos sociais e argumentativos. Uma das manifestações desse comportamento é o chamado viés do meu lado. Não raciocinamos somente para descobrir o que é verdadeiro. Raciocinamos também para defender nossas posições, encontrar argumentos favoráveis ao nosso grupo e localizar falhas nas posições adversárias. A razão, que gostamos de imaginar como juíza, frequentemente trabalha como advogada.

Por isso, a esquerda identifica com facilidade as mentiras da direita, enquanto a direita reconhece rapidamente as falsidades da esquerda. O ponto cego está quase sempre dentro de casa. Cada grupo acumula provas de que o outro mente e interpreta a própria tolerância à desinformação como uma exceção justificável.

A fake news mais eficiente não precisa inventar tudo. Precisa apenas entregar a cada grupo a versão dos fatos que ele já estava disposto a aceitar.

Meias verdades são mais resistentes

Em 2022, no estudo Fake news e política real: uma análise do poder de virulência das notícias falsas, que escrevi com Leonardo Crociari, analisamos como as notícias falsas ganham aparência de legitimidade. Uma das conclusões continua central: as fake news mais sofisticadas podem partir de um fato real, retirar o contexto, ocultar uma parte relevante e conduzir o público a uma conclusão que os dados não autorizam.

Uma mentira inteiramente absurda oferece um alvo claro. Pode ser confrontada e desmontada. A meia verdade é mais resistente porque contém algo verificável. O acontecimento existiu, a frase foi pronunciada ou o número foi publicado. A fraude está na moldura: no recorte, na proporção, na data omitida ou na falsa relação de causa e efeito.

Essa estrutura funciona porque ninguém consegue dominar todos os assuntos sobre os quais é convidado a opinar. Entre verificar uma questão complexa e compartilhar uma conclusão compatível com aquilo em que já acreditamos, o segundo caminho é mais rápido, menos trabalhoso e socialmente recompensador.

Não compartilhamos apenas informações. Compartilhamos sinais de pertencimento.

O animal social não procura somente a verdade

Em O animal social, de Elliot Aronson, encontramos uma discussão sobre como nosso comportamento é influenciado pela conformidade, pela persuasão, pela necessidade de aceitação e pela tentativa de justificar nossas decisões. Não avaliamos uma informação somente pelo conteúdo. Também pesam a identidade de quem a publicou, a reação do grupo e o significado social de concordar ou discordar.

Uma fake news pode circular porque alguém foi enganado. Mas também circula porque desempenha uma função dentro da comunidade. Compartilhá-la demonstra lealdade, reforça valores, ataca o grupo rival e rende aprovação imediata. O conteúdo falso passa a valer menos como informação e mais como senha de entrada na tribo.

É aqui que o viés de confirmação ganha força. O fenômeno foi examinado por Raymond S. Nickerson no artigo científico Confirmation Bias: A Ubiquitous Phenomenon in Many Guises, publicado em 1998. Procuramos e interpretamos evidências de maneira favorável às crenças que já possuímos. Tendemos a acolher informações compatíveis com nossas hipóteses e a exigir provas muito mais rigorosas das informações que as desafiam.

Jonathan Haidt, em A mente moralista, oferece outra chave importante: muitos julgamentos morais começam na intuição, enquanto o raciocínio chega depois para justificá-los. Primeiro sentimos que algo é certo ou errado. Depois organizamos argumentos capazes de sustentar essa impressão. Na política, em que opiniões se confundem com identidade e pertencimento, essa dinâmica se intensifica.

Assim, não acreditamos apenas porque analisamos. Muitas vezes analisamos para continuar acreditando.

A confortável sensação de estar certo

Costuma-se afirmar que o ser humano sempre procura sua zona de conforto. A frase é incompleta. Pessoas também buscam desafios, riscos, mudanças e novidades. O que evitamos com enorme frequência é o desconforto de perceber que nossa visão de mundo pode estar errada.

Daniel Kahneman, em Rápido e devagar: duas formas de pensar, mostra que boa parte de nossos julgamentos nasce de processos automáticos, intuitivos e econômicos. Pensar devagar, conferir informações e considerar hipóteses concorrentes exige esforço. Aquilo que é familiar, repetido e fácil de compreender produz fluência cognitiva, uma sensação que pode ser confundida com verdade.

A repetição não transforma uma mentira em fato, mas pode torná-la psicologicamente mais aceitável.

Quando uma evidência ameaça uma crença importante, também enfrentamos a dissonância cognitiva: o conflito entre aquilo que acreditamos e aquilo que os fatos parecem demonstrar. Carol Tavris e Elliot Aronson, em Mistakes Were Made (But Not by Me), mostram como a autojustificação reduz esse desconforto. Em vez de rever a opinião, reinterpretamos a evidência. Em vez de admitir que fomos enganados, atacamos quem apresentou a correção.

Essa é a verdadeira zona de conforto da desinformação. Envolve a proteção de uma identidade construída ao longo do tempo e compartilhada com pessoas cuja aprovação valorizamos.

Os algoritmos aceleram aquilo que já existia

As plataformas digitais ampliaram o problema. Sistemas orientados pela atenção podem favorecer conteúdos que provocam medo, raiva, surpresa e indignação. A mentira ganhou alcance mundial, segmentação precisa e velocidade instantânea.

Mas culpar somente o algoritmo é outra resposta confortável. Boatos, propaganda, rumores políticos e falsificações existiam muito antes da internet. A tecnologia encontrou nossa disposição para acreditar em versões convenientes e ampliou as possibilidades de explorá-la.

O celular transformou cada pessoa em receptora, editora e distribuidora. O mesmo aparelho que permite consultar uma fonte também permite espalhar uma fraude antes de terminar a leitura. Nunca tivemos tanto acesso à informação, mas acesso não produz automaticamente discernimento.

As plataformas conhecem nossos hábitos. Os grupos conhecem nossas lealdades. Os produtores de desinformação conhecem nossos medos. Quando essas três forças se encontram, a mentira encontra condições para alcançar o público mais receptivo a ela.

Precisamos recuperar Sancho Pança

No meu texto sobre Dom Quixote, Sancho Pança aparece como a parte de nós que ainda desconfia dos exageros. Ele percebe a distância entre o moinho e o gigante, suspeita das certezas absolutas e tenta devolver alguma complexidade ao mundo.

Nosso Sancho, porém, anda cansado. A dúvida raramente viraliza. A ponderação perde velocidade para a fúria. Uma correção cuidadosa dificilmente compete com uma mentira que oferece vilões claros, respostas fáceis e a satisfação imediata de estar do lado certo.

Combater fake news exige fortalecer esse Sancho interior. Antes de compartilhar, precisamos perguntar: por que desejo tanto que isso seja verdade? Eu aceitaria essa informação com a mesma facilidade se ela favorecesse o grupo adversário? Li o conteúdo completo ou apenas reagi ao título? Estou procurando compreender ou apenas reunir munição?

Checagem, transparência, jornalismo profissional, educação midiática e responsabilização por fraudes deliberadas são indispensáveis. Mas nenhuma dessas ferramentas resolve sozinha um problema cuja raiz também está em nossa necessidade de coerência, identidade e pertencimento.

Isso não significa relativizar a verdade nem dizer que todas as versões possuem o mesmo valor. Fatos podem ser verificados. Mentiras podem ser demonstradas. Responsáveis podem e devem responder por fraudes. O que não podemos é imaginar que algum campo político seja naturalmente imune aos mecanismos psicológicos que distorcem nossa percepção.

Também precisamos evitar que o combate à mentira se transforme em disputa pelo monopólio da verdade. Como advertimos no estudo de 2022, quando toda informação incômoda recebe o rótulo de fake news, o termo perde precisão e se torna instrumento de poder.

Dom Quixote precisava recuperar a capacidade de negociar com a realidade. Nós também.

Fake news não pertencem à esquerda nem à direita. Elas pertencem à parte de nós que prefere uma narrativa confortável a um fato que desorganize nossas certezas. Enquanto continuarmos tratando a desinformação como defeito moral exclusivo do adversário, seguiremos cavalgando contra moinhos, convencidos de que os gigantes sempre estão do outro lado.


Sobre o autor

Gabriel Scarpellini é publicitário, especialista em Marketing Político e Comunicação Governamental pelo IDP e membro fundador da Alcateia Política. Sócio de agência de publicidade, atua também como consultor em marketing político, estratégia e comunicação.